
Vai haver um dia, talvez já tenha havido, em que alguém se senta e pensa: "Para quê?"
É concreto. É olhar para a conta bancária e ver que este mês entrou menos do que saiu. É abrir o Instagram e ver alguém da mesma área que parece ter tudo resolvido: os clientes, a visibilidade, a leveza. É ouvir pela terceira vez, de alguém que supostamente apoia, a pergunta sobre quando vai arranjar um emprego a sério.
Nesse dia, apetece fechar tudo: apagar as redes sociais, mandar um email a dizer que acabou, candidatar-se ao primeiro emprego que apareça.
Este artigo é para esse dia.
Vai acontecer a toda a gente
A maioria das pessoas que fala sobre empreendedorismo fala do início: a coragem de começar, a emoção do primeiro cliente, a liberdade de ser o próprio chefe. Poucas falam do que vem a seguir: os meses em que nada parece funcionar.
Isso tem um nome: o planalto. Aquele período em que já se investiu tempo, energia e dinheiro, mas os resultados não correspondem. Os clientes não aparecem ao ritmo esperado, o crescimento estagna e a dúvida instala-se.
Uma boa parte dos negócios em fase inicial não passa dos primeiros anos. Mas o que os números não mostram é quantas dessas pessoas desistiram no dia errado, num momento de frustração, sem análise nenhuma.
O dia em que mais apetece desistir é, quase sempre, só o dia em que dói mais.
Os gatilhos mais comuns
O desejo de desistir tem gatilhos, e reconhecê-los é o primeiro passo para não reagir por impulso.
Um cliente que não paga. Quem empreende fez o trabalho, entregou-o e agora tem de andar atrás de alguém para receber. A sensação de injustiça mistura-se com a insegurança: "será que não me levam a sério?"
Um mês sem clientes novos. Especialmente quando o mês anterior também foi fraco. A mente começa a projetar: se este mês foi zero, o próximo também vai ser, e o seguinte também, e antes de se dar conta já se estão a imaginar cenários catastróficos que ainda não aconteceram.
A comparação. Uma pessoa abre o Instagram e vê alguém, da mesma área, com menos experiência, que parece estar a fazer tudo certo. Muitos seguidores, testemunhos, lançamentos de sucesso. O que não se vê: os dois anos de tentativas falhadas, os investimentos, a equipa nos bastidores, ou o facto de que as redes sociais são uma montra dos melhores momentos, escolhidos a dedo.
O comentário da família. "Não era melhor um emprego estável?" Dito com preocupação genuína, mas que soa a confirmação de todos os medos. Porque se até as pessoas próximas duvidam, talvez tenham razão.
O resultado negativo. O momento em que o mês fica abaixo do salário mínimo. Por mais horas e esforço que tenham entrado, a faturação fica abaixo do necessário.
Cada um destes gatilhos, isolado, é gerível. O problema é quando se acumulam. E nesse momento, o "para quê?" fica difícil de ignorar.
O que não fazer nesse dia
Há uma regra simples: não se tomam decisões permanentes num dia temporário.
Fechar o negócio, apagar o site e mandar mensagens a clientes a dizer que se vai parar são decisões permanentes.
O dia mau pode durar uma semana ou um mês, mas é temporário.
Nesse dia, nada de fechar o negócio, apagar contas ou avisar clientes. Sentir-se péssimo não obriga a agir sobre isso.
O cérebro, num momento de stress agudo, não está equipado para fazer análises estratégicas. Nesse momento o medo pesa mais, e não ajuda a tomar decisões de longo prazo.
O que fazer em vez disso
Os factos antes das emoções
Quando tudo parece estar a correr mal, a sensação é global: "nada funciona". Mas a realidade raramente é global: costuma ser específica.
O exercício é pegar num papel e escrever: o que exatamente está a correr mal? Não "tudo". Os factos. Um cliente que não pagou. Este mês faturei 400€. Não tive nenhum contacto novo em três semanas.
Depois, olhar para os últimos 3 meses, em vez de só para hoje. Qual foi a média de faturação? Quantos clientes novos entraram? Qual é a tendência: está a subir, a descer, ou estável?
Muitas vezes, o dia mau é exatamente isso: um dia mau, dentro de uma trajetória que, vista com distância, está a funcionar, mesmo que sem brilho.
Falar com quem percebe
Ajuda procurar alguém que esteja na mesma situação, que saiba o que é ter um mês de zero clientes e que já tenha tido a conversa do "arranjar um emprego a sério".
Falar com quem percebe tem dois efeitos. Primeiro, a sensação de não estar nisto a sós, o que por si só já reduz a intensidade do "para quê". Segundo, ganha-se perspetiva, porque a outra pessoa provavelmente vai dizer: "Eu também tive esse mês. E passei."
Escrever o que realmente está errado
Parece simplista, mas funciona. Escrever, sem dramatizar, o que levou a este ponto quase sempre mostra que "tudo" são, afinal, duas ou três coisas concretas.
Talvez falte um sistema de captação de clientes. Talvez os preços não cubram os custos. Talvez o negócio dependa de uma só pessoa a fazer tudo, já sem energia. Talvez o primeiro ano esteja a ser comparado com o quinto ano de outra pessoa.
Cada um destes é um problema resolúvel. "Quero desistir" não é resolúvel. Mas "preciso de definir melhor a minha oferta" já é.
Dormir antes de decidir
Há razões biológicas para isto. Após uma noite de sono, o córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável por decisões racionais, funciona melhor. O dia a seguir a um dia mau não é necessariamente um dia bom. Mas é um dia em que se pensa com mais clareza.
A Ana e o dia em que quase fechou tudo
A Ana é designer. Tem 35 anos e estava a meio de um projeto quando o cliente desapareceu. Três semanas de trabalho. Sem contrato formal, sem pagamento adiantado. O cliente simplesmente deixou de responder.
Foi o gatilho. Não o único problema: a Ana já vinha com meses de cansaço, clientes que regateavam preços, e aquela sensação persistente de que estava a trabalhar mais do que nunca para ganhar menos do que esperava.
Nessa noite, abriu o computador para apagar o site, e não chegou a fazê-lo. O que a travou foi o cansaço: decidiu que trataria disso no dia seguinte.
No dia seguinte, em vez de apagar, escreveu o que estava errado. Não "tudo". As coisas concretas: sem contrato, sem pagamento adiantado, preços demasiado baixos, clientes que não respeitavam o seu tempo.
Nas semanas seguintes, resolveu cada uma. Criou um contrato padrão. Passou a pedir 50% antes de começar. Reviu os preços. O cliente que desapareceu nunca pagou. Mas a Ana fez da pior experiência do seu negócio a mais útil.
A força dela esteve em não agir no dia errado.
A Sofia e o passo que faltava
A Sofia é coach. Tem 34 anos e dois filhos pequenos. Depois de seis meses a trabalhar no negócio, tinha exatamente três clientes.
O dia de querer desistir chegou quando somou o que tinha faturado: em seis meses, tinha faturado 900€, 150€ por mês. Menos do que gastava em fraldas.
Mas quando analisou dias depois, com distância, o que realmente tinha feito nesses seis meses, descobriu algo importante: nunca tinha definido claramente a sua oferta. Faltava-lhe um preço fixo e um processo de venda. Tinha uma ideia vaga e muita vontade, mas faltavam-lhe peças fundamentais do negócio.
O problema da Sofia era um passo em falta. E há uma diferença enorme entre "isto não funciona" e "isto ainda não tem as condições para funcionar".
Quando preencheu essas lacunas, com oferta clara, preço definido e processo mínimo de captação, os resultados começaram a aparecer, devagar, mas apareceram.
O que distingue quem continua
Quem tem um negócio de sucesso é quem não desistiu no dia em que quis.
É algo mais prosaico do que resiliência: a capacidade de distinguir um dia mau de uma má decisão, e de perceber que a frustração é informação sobre o que está a falhar.
Quando nada parece funcionar, a resposta quase sempre passa por trabalhar na coisa certa, mais do que por trabalhar mais. E descobrir qual é a coisa certa é mais fácil quando a cabeça não está ocupada a decidir se o negócio fecha ou não.
A aula «Quando nada funciona» do Elevate Club existe para este momento: separar o que é frustração temporária do que é um problema real, e identificar o que precisa de mudar quando é mesmo um problema.
O dia vai chegar, se é que ainda não chegou. E quando vier, é só a parte do caminho que ninguém mostra.
O que a pessoa fizer nesse dia define o que vem a seguir.
E há um hábito que muda estes dias: substituir a sensação global ("nada funciona") pelos três números que contam: quanto entrou, quanto saiu, quantos contactos novos surgiram.
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