Quem empreende tem, mais cedo ou mais tarde, o dia em que quer largar tudo. O que importa é o que fazes nesse dia, e se consegues distinguir um dia mau de uma má decisão.
Construir um negócio com filhos pequenos é possível, e não se parece com o que o Instagram mostra. Como funciona na prática, com duas a três horas por dia.
Prazos de pagamento que aliviam o caixa, comparações pelo preço total e não pelo unitário, o risco do fornecedor único e o preço da fiabilidade: as compras também são gestão.
Contratar a primeira pessoa é uma decisão de números e de sinais, e decide-se com contas feitas. E o primeiro erro costuma ser querer delegar a parte errada.
Próximo passo
8 minutos, e sais com a ordem das tuas decisões.
Vai haver um dia, talvez já tenha havido, em que te vais sentar e pensar: "Para quê?"
É concreto. É olhar para a conta bancária e ver que este mês ganhaste menos do que gastaste. É abrir o Instagram e ver alguém na tua área que parece ter tudo resolvido: os clientes, a visibilidade, a leveza. É ouvir pela terceira vez "mas não arranjas um emprego a sério?" de alguém que supostamente te apoia.
Nesse dia, vais querer fechar tudo. Apagar as redes sociais. Mandar um email a dizer que acabou. Candidatar-te ao primeiro emprego que apareça.
Este artigo é para esse dia.
A maioria das pessoas que fala sobre empreendedorismo fala do início: a coragem de começar, a emoção do primeiro cliente, a liberdade de ser o teu próprio chefe. Poucas falam daquilo que vem a seguir. Os meses em que nada parece funcionar.
Isso tem um nome: o planalto. Aquele período em que já investiste tempo, energia e dinheiro, mas os resultados não correspondem. Os clientes não aparecem ao ritmo que esperavas. O crescimento estagna. E a dúvida instala-se.
Uma boa parte dos negócios em fase inicial não passa dos primeiros anos. Mas o que os números não dizem é quantas dessas pessoas desistiram no dia errado, num momento de frustração e não de análise.
Porque o dia em que queres desistir raramente é o dia em que deverias desistir, é apenas o dia em que dói mais.
O desejo de desistir não aparece do nada. Tem gatilhos. E reconhecê-los é o primeiro passo para não reagires por impulso.
Um cliente que não paga. Fizeste o trabalho, entregaste, e agora estás a perseguir alguém para receber. A sensação de injustiça mistura-se com a insegurança: "será que não me levam a sério?"
Um mês sem clientes novos. Especialmente quando o mês anterior também foi fraco. A mente começa a projetar: se este mês foi zero, o próximo também vai ser, e o seguinte também, e antes de dares conta já estás a imaginar cenários catastróficos que ainda não aconteceram.
A comparação. Abres o Instagram e vês alguém, na tua área, com menos experiência, que parece estar a fazer tudo certo. Muitos seguidores, testemunhos, lançamentos de sucesso. O que não vês: os dois anos de tentativas falhadas, os investimentos, a equipa nos bastidores, ou o facto de que as redes sociais são uma montra dos melhores momentos, escolhidos a dedo.
O comentário da família. "Já pensaste em arranjar um emprego estável?" Dito com preocupação genuína, mas que atinge como uma validação de todos os teus medos. Porque se até as pessoas que te amam duvidam, talvez tenham razão.
A conta que não fecha. Quando percebes que este mês ganhaste menos do que o salário mínimo. Não importa quantas horas trabalhaste, quanto esforço investiste: os números dizem que não chega.
Cada um destes gatilhos, isolado, é gerível. O problema é quando se acumulam. E nesse momento, o "para quê?" torna-se ensurdecedor.
Há uma regra simples que vale ouro: não tomes decisões permanentes num dia temporário.
Fechar o negócio é uma decisão permanente. Apagar o site é uma decisão permanente. Mandar mensagens a clientes a dizer que vais parar é uma decisão permanente.
O dia mau não é permanente. Pode durar uma semana. Pode durar um mês. Mas é temporário.
Nesse dia, não feches nada. Não apagues nada. Não comuniques nada. Dá-te o direito de te sentires miserável sem agir sobre essa miséria.
O teu cérebro, num momento de stress agudo, não está equipado para fazer análises estratégicas. A parte que sente medo é a que fala mais alto. E é uma péssima conselheira para decisões de longo prazo.
Quando tudo parece estar a correr mal, a sensação é global: "nada funciona". Mas a realidade raramente é global. É específica.
Pega num papel e escreve: o que exatamente está a correr mal? Não "tudo". Os factos. Um cliente que não pagou. Este mês faturei €400. Não tive nenhum contacto novo em três semanas.
Agora olha para os últimos 3 meses, não para hoje. Qual foi a média de faturação? Quantos clientes novos tiveste? Qual é a tendência: está a subir, a descer, ou estável?
Muitas vezes, o dia mau é exatamente isso: um dia mau. Inserido numa trajetória que, vista com distância, está a funcionar. Não brilhantemente. Mas a funcionar.
Procura alguém que está no mesmo barco. Que sabe o que é ter um mês de zero clientes. Que já teve a conversa do "arranja um emprego a sério".
Quando falas com quem percebe, duas coisas acontecem. Primeiro, sentes que não estás nisto a sós, o que por si só já reduz a intensidade do "para quê". Segundo, ganhas perspetiva. Porque a outra pessoa provavelmente vai dizer: "Eu também tive esse mês. E passei."
Parece simplista, mas funciona. Quando escreves, sem dramatizar, o que te levou a este ponto, quase sempre descobres que "tudo" são, afinal, duas ou três coisas concretas.
Talvez não tenhas um sistema de captação de clientes. Talvez os teus preços não cubram os custos. Talvez estejas a tentar fazer tudo sem ajuda e já não tens energia. Talvez estejas a comparar o teu primeiro ano com o quinto ano de outra pessoa.
Cada um destes é um problema resolúvel. "Quero desistir" não é resolúvel. Mas "preciso de definir melhor a minha oferta" já é.
Há razões biológicas para isto. Após uma noite de sono, o córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável por decisões racionais, funciona melhor. O dia a seguir a um dia mau não é necessariamente um dia bom. Mas é um dia em que pensas com mais clareza.
A Ana é designer. Tem 35 anos e estava a meio de um projeto quando o cliente desapareceu. Três semanas de trabalho. Sem contrato formal, sem pagamento adiantado. O cliente simplesmente deixou de responder.
Foi o gatilho. Não o único problema: a Ana já vinha com meses de cansaço, clientes que regateavam preços, e aquela sensação persistente de que estava a trabalhar mais do que nunca para ganhar menos do que esperava.
Nessa noite, abriu o computador para apagar o site, e não chegou a fazê-lo. O que a travou foi o cansaço: decidiu que trataria disso no dia seguinte.
No dia seguinte, em vez de apagar, escreveu o que estava errado. Não "tudo". As coisas concretas: sem contrato, sem pagamento adiantado, preços demasiado baixos, clientes que não respeitavam o seu tempo.
Nas semanas seguintes, resolveu cada uma. Criou um contrato padrão. Passou a pedir 50% antes de começar. Reviu os preços. O cliente que desapareceu nunca pagou. Mas a Ana fez da pior experiência do seu negócio a mais útil.
Não porque era forte, mas porque não agiu no dia errado.
A Sofia é coach. Tem 34 anos e dois filhos pequenos. Depois de seis meses a trabalhar no negócio, tinha exatamente três clientes.
O dia de querer desistir chegou quando fez as contas: em seis meses, tinha faturado €900. Menos de €150 por mês. Menos do que gastava em fraldas.
Mas quando analisou, com calma e dias depois, o que realmente tinha feito nesses seis meses, descobriu algo importante: nunca tinha definido claramente a sua oferta. Faltava-lhe um preço fixo e um processo de venda. Tinha uma ideia vaga e muita vontade, mas faltavam-lhe peças fundamentais do negócio.
O problema da Sofia era um passo em falta. E há uma diferença enorme entre "isto não funciona" e "isto ainda não tem as condições para funcionar".
Quando preencheu essas lacunas, com oferta clara, preço definido e processo mínimo de captação, os resultados começaram a aparecer. Não de um dia para o outro. Mas apareceram.
Quem tem um negócio de sucesso é quem não desistiu no dia em que quis.
É algo mais prosaico do que resiliência: a capacidade de distinguir um dia mau de uma má decisão. De perceber que a frustração é informação sobre o que está a falhar.
Quando nada parece funcionar, a resposta raramente é "trabalha mais", é quase sempre "trabalha na coisa certa". E descobrir qual é a coisa certa é mais fácil quando não estás a tentar decidir se fechas ou não o negócio.
A lição Quando Nada Funciona do Elevate existe para este momento: separar o que é frustração temporária do que é um problema real, e identificar o que precisa de mudar quando é mesmo um problema.
Vais ter o dia. Talvez já o tiveste. E quando ele vier, é só a parte do caminho que ninguém mostra.
O que fazes nesse dia é que define o que vem a seguir.
E há um hábito que muda estes dias: substituir a sensação global ("nada funciona") pelos três números que contam: o que faturas, o que gastas, quantos contactos novos tiveste.