
Marca numa página
Para quem é o negócio, o que promete, como fala e o que mostra, escrito numa página que serve de régua.
Índice
- A situação
- O que fica na página
- Passo 1 — Para quem é
- Passo 2 — A promessa
- Passo 3 — Como fala: três traços de voz
- Passo 4 — O que mostra: cores, letras e fotografias
- Passo 5 — A frase de apresentação
- Passo 6 — Juntar tudo na página e usar
- A página de um atelier de cerâmica
- A folha que acompanha este guia
- Erros frequentes
- Checklist final
A situação
Todos os negócios já têm uma marca, mesmo sem a ter escrito. Está na forma como se responde às mensagens, nas fotografias que se escolhem, no texto da proposta e na maneira de explicar o trabalho a quem pergunta. O que costuma faltar é que seja a mesma em todo o lado: o Instagram soa de uma maneira, o WhatsApp de outra, o orçamento parece de outro negócio, e as cores mudam de publicação para publicação.
Sem a marca escrita, cada texto novo começa do zero, e quem ajuda (alguém da família, um designer, uma ferramenta de IA) não tem nada por onde se guiar. Com ela numa página, decide-se uma vez e aplica-se sempre: a legenda, a resposta a um cliente, a fotografia do produto e a frase com que o negócio se apresenta saem da mesma folha.
Este guia monta essa página em seis passos, com o método das aulas da área de marca do Elevate Club («Tom de voz e personalidade da marca», «Identidade visual básica» e «Bio profissional multiplataforma») e da aula «Proposta de valor». Conta-se com duas a três horas, divididas em dois dias: o passo 3 pede a opinião de três pessoas, e convém dar-lhes tempo para responder.
O que fica na página
| Bloco | O que responde | Tamanho |
|---|---|---|
| Para quem é | Quem compra, em que momento, e para quem o negócio não é | 4 linhas |
| A promessa | O que a pessoa tem quando o trabalho acaba, e porque escolhe este negócio | 1 frase |
| Como fala | Três traços de voz, cada um com uma frase que se diz e outra que não se diz | 7 linhas |
| O que mostra | As cores, as letras e as regras das fotografias | 9 linhas |
| A frase de apresentação | O que o negócio faz, para quem, e o que o distingue | 1 frase |
Passo 1 — Para quem é
A marca escreve-se para uma pessoa concreta. Começar pelos três últimos clientes com quem o trabalho correu melhor: o que tinham em comum, em que momento procuraram o negócio, o que já tinham tentado antes.
Descrever quem compra pela situação, e não pela idade nem pelo género. «Pessoas entre 30 e 45 anos» não ajuda a escrever uma legenda; «quem acabou de mudar de casa e quer pôr a mesa com peças de que goste» ajuda. A situação diz o que a pessoa procura e as palavras que usa para o procurar.
Os quatro campos do bloco:
- Quem compra: a pessoa ou o negócio, descrito pela situação.
- Em que momento precisa: o que acontece na vida da pessoa para ela procurar o negócio.
- O que já tentou: a alternativa que usa hoje e o que lhe falta.
- Para quem o negócio não é: o cliente que o negócio prefere não ter, dito com a mesma precisão. Este campo poupa tempo em orçamentos que não vão avançar e em publicações que falam para toda a gente.
A aula «Perfil de cliente ideal» aprofunda este bloco, com as perguntas para fazer aos clientes atuais.
Sinal de que está bem feito: alguém de fora lê o bloco e consegue apontar uma pessoa que conhece e que encaixa nele.
Passo 2 — A promessa
A promessa é o que a pessoa tem quando o trabalho acaba, e não a tarefa que o negócio executa. A aula «Proposta de valor» monta-a com três partes: o resultado concreto, para quem, e o que torna o negócio diferente.
Para encontrar o resultado, reler os elogios que os clientes deixaram em mensagens, avaliações e conversas. As frases que se repetem («nunca tive um corte que durasse tanto», «finalmente percebi as minhas contas») já são o resultado, dito nas palavras de quem compra.
O diferencial é o que um cliente encontra neste negócio e não encontra no do lado: um prazo, uma garantia, um serviço depois da venda, uma forma de trabalhar. Tem de ser verdade e tem de se poder cumprir todos os dias.
A promessa = para quem + o resultado que fica + o que distingue o negócio
Sinal de que está bem feito: a promessa passa o teste do slogan. Se qualquer outro negócio do setor a podia assinar («qualidade e dedicação», «o melhor serviço»), ainda não diz nada de próprio e volta-se aos elogios dos clientes.
Passo 3 — Como fala: três traços de voz
O tom de voz é a forma como o negócio escreve e fala com quem compra. Também já existe: está nas mensagens escritas sem pensar em público. Neste passo, o trabalho é encontrá-lo e escrevê-lo, para soar igual no Instagram, no WhatsApp e no email.
Recolher a matéria-prima. Juntar as últimas 10 mensagens enviadas a clientes, as últimas 5 publicações, e pedir a 3 pessoas que conhecem o negócio (clientes, de preferência) que o descrevam em três palavras. A aula «Tom de voz e personalidade da marca» chama a isto o espelho de voz: o que os outros dizem conta tanto como o que se quer ser. Se o negócio se quer «sofisticado» e as três pessoas dizem «simpático», é na simpatia que está a força.
Escolher três traços. Das palavras recolhidas, ficam três. Cada traço escreve-se com o seu limite, na forma «X, mas nunca Y», porque um traço sem limite estraga-se: «próximo» sem limite acaba em familiaridade a mais, «direto» acaba em secura.
Dar a cada traço dois exemplos. Uma frase que o negócio diz e outra, sobre o mesmo assunto, que não diz. São os exemplos que tornam o traço utilizável por outra pessoa.
Escrever a frase-filtro. Uma pergunta para testar qualquer texto antes de sair: «Como diria isto [um tipo de pessoa]?». Por exemplo: «Como diria isto quem corta cabelo há muitos anos e conhece cada cliente pelo nome?»
Sinal de que está bem feito: a mesma mensagem (um aviso de vagas, por exemplo) escrita como publicação, como resposta de WhatsApp e como email soa ao mesmo negócio nas três versões, com o email mais arrumado e a publicação mais leve.
Passo 4 — O que mostra: cores, letras e fotografias
A identidade visual é o que faz alguém reconhecer o negócio antes de ler uma palavra. A aula «Identidade visual básica» assenta-a em três coisas: uma paleta curta, duas letras e a consistência de as usar em tudo.
As cores: três a cinco, cada uma com uma função.
| Função | Onde se usa |
|---|---|
| Principal | Títulos, botões, o elemento mais importante de cada peça |
| Secundária | Ícones, destaques, pormenores |
| Neutra clara | Fundos |
| Neutra escura | Texto (um castanho ou um azul muito escuros leem-se melhor do que o preto puro) |
| Destaque (opcional) | Uma chamada de atenção pontual, usada raramente |
Cada cor fica com o código hexadecimal (#B5654A, por exemplo), para ser exatamente a mesma no Canva, no site e na impressão. Escolhem-se pela reação que se quer em quem compra, e não pela cor preferida de quem gere o negócio.
As letras: duas, no máximo. Uma para títulos, com personalidade (serifada para um ar clássico, sem serifa e mais grossa para um ar moderno), e outra para o texto, simples e legível. Muda-se o peso e o tamanho, nunca a letra. O Google Fonts tem centenas de letras gratuitas, e a forma mais rápida de escolher é escrever o nome do negócio com a letra de título e uma frase de serviço com a de texto.
As fotografias: três regras. As cores e as letras sozinhas não chegam quando o feed é feito sobretudo de fotografias. Escrever três regras sobre:
- A luz: natural, à mesma hora ou junto à mesma janela.
- O fundo: um ou dois fundos que se repetem (uma parede, uma mesa, um tecido).
- O que aparece: o produto em uso, o pormenor do trabalho, as mãos a fazer, o espaço. E o que nunca aparece.
Sinal de que está bem feito: as últimas 9 publicações postas lado a lado, mais um orçamento e uma story, parecem do mesmo negócio. Quando uma destoa, quase sempre é por uma cor a mais ou uma letra diferente.
Passo 5 — A frase de apresentação
É a frase que vai para a bio, para o início do site, para a assinatura do email e para a resposta a «o que é que faz?». Junta o que o negócio faz, para quem, e o que o distingue, e cabe em 15 segundos ditos em voz alta (cerca de 30 palavras).
A aula «Bio profissional multiplataforma» ensina a escrever primeiro a versão mais longa e a encurtar depois. A versão para a bio do Instagram tem de caber em 150 caracteres, o limite da plataforma, e acaba no que a pessoa deve fazer a seguir (marcar, enviar mensagem, ver o catálogo).
A frase testa-se antes de ir para a bio, com seis perguntas:
- Diz o que o negócio faz?
- Diz para quem é?
- Diz o resultado para quem compra?
- Tem um diferencial que outro negócio do setor não pode assinar?
- Usa as palavras de quem compra, sem termos do setor?
- Dita a três pessoas de fora, elas conseguem repeti-la por outras palavras?
A sexta pergunta é a que mais falha, e é a que conta. Dizer a frase a três pessoas que não conhecem o negócio e pedir-lhes que digam, por palavras delas, o que o negócio faz e para quem. Se as três acertam nas duas coisas, a frase funciona.
Sinal de que está bem feito: seis respostas «sim», até 30 palavras na frase, e a versão da bio até 150 caracteres.
Passo 6 — Juntar tudo na página e usar
Com os cinco blocos escritos, a página fica pronta: uma folha que se guarda no telemóvel, se imprime para a parede do espaço de trabalho e se envia a quem ajuda com as redes, o site ou os materiais.
Daqui em diante, cada texto novo passa pela frase-filtro, cada peça nova parte das cores e das letras da página, e cada fotografia segue as três regras. A página revê-se quando o negócio muda (um serviço novo, outro tipo de cliente) e não ao sabor do dia.
Sinal de que está bem feito: a próxima publicação e a próxima resposta a um cliente saem da página sem decisões novas.
A página de um atelier de cerâmica
A Inês tem um atelier de cerâmica e vende pratos, taças e canecas pelo Instagram e em duas feiras por mês. A bio dizia «Cerâmica artesanal feita com amor», e cada publicação tinha um fundo diferente.
Para quem é. Os três últimos clientes que voltaram a comprar tinham acabado de mudar de casa ou procuravam um presente de casamento, e todos tinham perguntado se as peças iam à máquina.
- Quem compra: quem monta casa ou oferece um presente e quer loiça feita à mão para usar.
- Em que momento precisa: uma mudança de casa, um casamento, uma peça partida de um conjunto.
- O que já tentou: loiça de loja, igual em todas as casas, ou peças artesanais bonitas que ficam na prateleira por medo de as estragar.
- Para quem o negócio não é: quem procura peças decorativas únicas ou encomendas grandes para restauração, com prazo curto.
A promessa. O elogio que mais se repetia nas mensagens era «uso todos os dias». O diferencial é que todas as peças do catálogo se voltam a fazer, por isso uma peça partida substitui-se por outra igual.
Loiça feita à mão para usar todos os dias, que vai à máquina e se volta a fazer igual quando uma peça parte.
Como fala. As três pessoas descreveram o atelier como «cuidadoso», «simples» e «calmo». Os três traços ficaram assim:
| Traço | Diz-se | Não se diz |
|---|---|---|
| Próxima, mas nunca íntima | «A taça que pediu está pronta e segue amanhã.» | «A tacinha já está prontinha, é uma fofura!» |
| Precisa, mas nunca técnica | «Vai à máquina de lavar e ao micro-ondas.» | «Grés cozido a alta temperatura com vidrado alimentar.» |
| Calma, mas nunca fria | «Cada peça leva três semanas, porque seca devagar antes de ir ao forno.» | «ÚLTIMAS PEÇAS!!! Corram!» |
A frase-filtro: «Como diria isto quem faz as peças e as usa na própria mesa?»
O que mostra.
| Campo | Escolha |
|---|---|
| Cor principal | Terracota #B5654A |
| Cor secundária | Verde-azeitona #7A7F4E |
| Neutra clara | Creme #F4EEE4 |
| Neutra escura | Castanho-escuro #3A3330 |
| Letra dos títulos | Lora (serifada) |
| Letra do texto | Inter (sem serifa) |
| Fotografia: luz | Natural, junto à janela do atelier, de manhã |
| Fotografia: fundo | A mesa de madeira clara ou o linho cru, e mais nenhum |
| Fotografia: o que aparece | As peças em uso, com comida, e o vidrado em grande plano; sem filtros |
A frase de apresentação. A primeira versão foi a bio antiga, e o teste deu uma resposta «sim» em seis:
| Pergunta | «Cerâmica artesanal feita com amor» | Versão nova |
|---|---|---|
| Diz o que o negócio faz? | sim | sim |
| Diz para quem é? | não | sim |
| Diz o resultado para quem compra? | não | sim |
| Tem um diferencial próprio? | não | sim |
| Usa as palavras de quem compra? | não | sim |
| Três pessoas de fora repetem-na? | não | sim |
A versão nova, com 25 palavras:
Loiça feita à mão para quem a quer usar todos os dias: vai à máquina de lavar e, se uma peça partir, faz-se outra igual.
As três pessoas a quem a Inês a disse repetiram-na como «faz loiça à mão para quem a quer usar, e não só ter na prateleira», «pratos e taças feitos à mão para usar em casa todos os dias» e «cerâmica para o dia a dia, que vai à máquina e se repõe quando parte». As três disseram o que o atelier faz e para quem.
A versão para a bio do Instagram, com 138 caracteres:
Cerâmica feita à mão para usar todos os dias · Vai à máquina de lavar · Se uma peça partir, faz-se outra igual · Encomendas por mensagem ↓
A folha que acompanha este guia
A folha Excel tem três separadores. O primeiro, «Página da marca», tem os campos dos cinco blocos, um por linha, para preencher pela ordem dos passos; a linha da bio conta os caracteres sozinha. O segundo, «Teste da frase», recebe a frase de apresentação, conta as palavras e os caracteres, e tem as seis perguntas do passo 5 para responder com «sim» ou «não»; no fim diz se a frase está pronta a usar. O terceiro, «Teste com 3 pessoas», regista o que cada pessoa repetiu e se acertou no que o negócio faz e para quem, e alimenta a sexta pergunta do teste. As células a amarelo são as que se preenchem; vêm com os números do atelier de cerâmica, para a folha abrir já a funcionar.
Erros frequentes
- Descrever quem compra pela idade e pelo género. Não diz o que a pessoa procura nem as palavras que usa. A situação diz.
- Uma promessa que qualquer negócio podia assinar. «Qualidade e dedicação» não distingue ninguém. O resultado e o diferencial têm de ser próprios do negócio.
- Traços de voz sem limite. «Divertida» sem o «mas nunca» acaba em piadas em todas as publicações.
- Cores escolhidas pelo gosto de quem gere. Escolhem-se pela reação de quem compra, e ficam três a cinco.
- Testar a frase de apresentação com a família. Quem conhece o negócio percebe sempre. O teste faz-se com três pessoas de fora.
- Escrever a página e não a usar. A página só serve se cada texto e cada peça nova partirem dela.
Checklist final
- Descrever quem compra pela situação, o momento em que precisa e para quem o negócio não é
- Escrever a promessa com o resultado, para quem e o diferencial, a partir dos elogios dos clientes
- Pedir a três pessoas que descrevam o negócio em três palavras
- Escrever três traços de voz no formato «X, mas nunca Y», com uma frase que se diz e outra que não se diz
- Escolher três a cinco cores com código e função, e duas letras
- Escrever as três regras das fotografias: a luz, o fundo e o que aparece
- Testar a frase de apresentação com as seis perguntas e com três pessoas de fora
- Atualizar a bio, a assinatura do email e o início do site com a frase aprovada
Depois do guia, o plano
Os posts do mês
O calendário das próximas duas semanas em Excel, a bio de cada rede e os primeiros posts escritos.
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