
A Sandra é ilustradora freelance há quase dois anos. Cobra 25€ por hora porque foi o que viu numa publicação de Instagram quando começou. Trabalha bem mais de 160 horas por mês entre clientes, propostas, revisões e administração, mas só cerca de metade dessas horas é que alguém lhe paga. Depois de impostos, contabilidade e Segurança Social, leva para casa pouco mais de 1.400€.
As receitas cobrem os custos em teoria, mas só porque ela trabalha mais horas do que devia, recusa-se a tirar férias e adiou indefinidamente comprar um computador novo.
Perguntada como chegou aos 25€, a resposta é: "vi que era um valor que as pessoas pagavam". Perguntada se essa hora cobre o custo real do que ela faz, a resposta é: "nunca calculei isso".
Esta é a história mais comum em pequenos negócios em Portugal. A Sandra é uma boa ilustradora e tem trabalho consistente. O que lhe falta é método para definir o número que vai ao orçamento.
Este artigo é esse método.
As três respostas erradas mais comuns
A pergunta "quanto devo cobrar por hora?" recebe quase sempre uma de três respostas erradas.
Resposta errada #1: olhar para a concorrência. Se outros ilustradores freelance cobram entre 20€ e 40€ por hora, o preço fica no meio: 30€. O problema é simples: não há como saber se quem cobra 20€ está a ter prejuízo, nem se quem cobra 40€ tem custos, clientes e anos de experiência diferentes. É copiar um número que pode estar errado e fingir que é uma decisão.
Resposta errada #2: calcular o que se queria ganhar e dividir por 160. Com 2.500€ por mês como objetivo, 2.500€ dividido por 160 horas dá 15,60€ por hora. Parece razoável. O problema é tudo o que falta neste cálculo: os impostos a pagar, os custos fixos, e o detalhe inconveniente de que não é possível faturar 160 horas por mês. Ninguém consegue.
Resposta errada #3: cobrar o que se aceita em consciência. Esta é a versão emocional. O preço é o que dá conforto dizer ao cliente sem nervosismo. O problema é que esse conforto é treinado por exposição: com clientes que reagem a qualquer preço acima de 30€ como a um insulto, 30€ passa a parecer o teto. É apenas o teto da bolha em que o negócio se move.
O método que funciona começa noutro sítio: nos números reais.
Os 4 ingredientes do valor/hora mínimo
Para chegar ao preço mínimo por hora que não deixa o negócio em prejuízo, há quatro coisas a saber. Por esta ordem:
- O salário líquido mensal pretendido. O necessário para viver com alguma margem, deixando de fora o que se ganhava como empregado e o que outra pessoa cobra.
- Os custos fixos mensais do negócio. Software, ferramentas, contabilidade, comunicações, plataformas, formação, viagens. Tudo o que se paga mesmo sem clientes esse mês.
- Os impostos a pagar. Em Portugal, isto significa IRS, IVA (se aplicável) e Segurança Social. Não é opcional nem depende de haver excedente.
- As horas realmente faturáveis por mês. As horas pelas quais alguém paga.
Cada um destes ingredientes é fácil de ignorar. Juntos, formam a base do cálculo. Os primeiros dois são uma soma simples. Os outros dois precisam de explicação.
O coeficiente fiscal, porque o líquido nunca é o que se fatura
Em Portugal, no regime simplificado (o mais comum para freelancers e pequenos negócios), a Segurança Social cobra 21,4% sobre 70% do rendimento relevante (a confirmar na Segurança Social Direta). Na prática, isto significa que se pagam cerca de 15% do que se fatura em contribuições obrigatórias. A contribuição paga-se todos os meses; o que é trimestral é a declaração de rendimentos que a define.
O IRS funciona de forma diferente. No regime simplificado para prestação de serviços (categoria B), a base tributável é 75% do que se fatura (é o coeficiente das profissões da tabela do art. 151.º do Código do IRS; nas outras prestações de serviços é 35%, a confirmar caso a caso). Essa base entra no IRS progressivo, que sobe do primeiro escalão de IRS (verifica a taxa em vigor no Portal das Finanças) progressivamente até ao escalão mais alto. Para um freelancer a faturar entre 25.000€ e 40.000€ por ano, o IRS efetivo representa uma fatia considerável do rendimento.
O IVA depende do enquadramento. Abaixo do limite de isenção de IVA em vigor, o freelancer fica isento (Artigo 53.º): não cobra IVA aos clientes nem o paga ao Estado. Convém confirmar o valor atual no Portal das Finanças, porque é revisto no Orçamento do Estado. Acima desse limite, cobra 23% (a maioria das prestações de serviços) e entrega-o, deduzindo o IVA dos custos.
Somando tudo, o resultado é desconfortável: em cada 100€ faturados, entre 22€ e 35€ vão para impostos e Segurança Social, e a fatia cresce com a faturação: quem fatura 30.000€ por ano entrega cerca de 26€ em cada 100€, quem fatura 50.000€ entrega cerca de 30€ (do 3.º ano de atividade em diante; nos dois primeiros é menos). Não há sítio nenhum onde isto se evite. Pode haver otimização legítima com contabilista, mas a ordem de grandeza não muda.
Para 2.500€ líquidos no fim do mês, é preciso faturar cerca de 3.500€ brutos. Para 3.500€, é preciso faturar cerca de 5.200€. Como regra prática, multiplica-se o valor líquido por 1,3 a 1,5, e o multiplicador sobe com o rendimento pretendido.
As horas faturáveis reais
O cálculo que toda a gente faz: 8 horas por dia × 5 dias × 4 semanas = 160 horas por mês.
O número real de horas faturáveis é metade disso.
A descontar:
- Férias e feriados. Em Portugal são 22 dias úteis de férias + 13 feriados nacionais. Isto retira cerca de 35 dias por ano, à volta de 2,5 a 3 dias por mês. São 20-25 horas perdidas. Ninguém paga estas.
- Doença e imprevistos. Realisticamente, 5-7 dias por ano. 2-4 horas por mês.
- Administração e contabilidade. Faturação, emails de cobrança, conversas com contabilista, declarações. 8-12 horas por mês.
- Prospeção e propostas. Encontrar clientes novos, escrever propostas que podem nem ser aceites. 10-15 horas por mês.
- Formação e organização interna. Aprender, organizar ficheiros, atualizar portfólio. 5-10 horas por mês.
- Revisões não cobradas e tempo "morto" entre projetos. A realidade do freelance: clientes que pagam pelo trabalho final mas não pelas três versões intermédias. 10-20 horas por mês.
Resultado: para 160 horas trabalhadas, ficam 80 a 100 horas faturáveis. Algures à volta da metade.
Esta é a parte que reduz as margens sem se dar por isso. Quando alguém cobra 30€ por hora e trabalha 160 horas por mês, está mentalmente a fazer 4.800€. Mas só faturou 90 dessas horas. O que faturou foram 2.700€, e é sobre esse número, e nunca sobre os 4.800€, que ainda faltam descontar impostos e custos fixos. A diferença entre o que pensava ganhar e o que ganhou é completamente invisível, até fechar o ano fiscal e perceber.
Sandra, ilustradora freelance: o cálculo completo
Vamos refazer o cálculo da Sandra com método.
Salário líquido desejado: 2.800€ por mês. É o que ela precisa para a renda de Lisboa, contas e algum espaço para poupar.
Custos fixos mensais:
- Adobe Creative Cloud: 60€
- Banco de imagens e texturas: 15€
- Plataforma de portfólio: 10€
- Domínio e email profissional: 10€
- Contabilidade: 40€
- Comunicações (telemóvel + internet): 30€
- Total: 165€ por mês
Faturação necessária: para ficar com 2.800€ depois de impostos e ainda pagar os 165€ de custos fixos, a Sandra tem de faturar cerca de 4.280€ por mês. Os custos fixos também contam: no regime simplificado, o IRS e a Segurança Social incidem sobre tudo o que se fatura, incluindo a parte que paga as despesas.
Horas faturáveis estimadas: A Sandra trabalha 8h/dia, 5 dias por semana. Descontando férias, admin, prospeção e revisões não cobradas, ficam-lhe 85 horas faturáveis por mês.
Valor/hora mínimo: 4.280€ ÷ 85 = 50€ por hora.
A Sandra está a cobrar 25€. Está a perder mais de metade do que precisa em cada hora que fatura. Essa diferença é a distância entre o que ela pensa que está a ganhar e o que efetivamente entra. Está a subsidiar os clientes dela com o seu próprio salário.
O valor recomendado (com margem para meses fracos, equipamento novo, formação e férias prolongadas) seria 40% acima do mínimo: 70€ por hora. Pode parecer agressivo, mas é exatamente o que ela precisa de cobrar para o negócio sobreviver dois anos sem ser à custa da saúde dela.
João, eletricista: o cálculo com materiais
O João tem um pequeno negócio de instalações elétricas em casa de clientes. Faz tudo sozinho, com a carrinha e uma caixa de ferramentas. Quer levar para casa 3.500€ por mês, sem contar os materiais (que fatura à parte com pequena margem).
Salário líquido desejado: 3.500€.
Custos fixos mensais:
- Carrinha (depreciação + manutenção + combustível): 350€
- Seguro profissional + carrinha: 70€
- Ferramentas (reposição e novas): 50€
- Comunicações: 30€
- Contabilidade: 60€
- Software de faturação: 15€
- Total: 575€ por mês
Faturação necessária: para ficar com 3.500€ e pagar os 575€ de custos fixos, que também pagam imposto, o João tem de faturar cerca de 6.230€ por mês.
Horas faturáveis: O João consegue faturar mais horas que a Sandra: vai a casa do cliente, faz o serviço, fatura. Menos prospeção (boca a boca), menos revisões. Mas mais deslocações não cobradas. Estimativa: 115 horas faturáveis por mês.
Valor/hora mínimo: 6.230€ ÷ 115 = 54€ por hora.
O João tem estado a cobrar 30€ por hora porque "é o que os outros cobram". Está a faltar-lhe 24€ por hora: mais de 2.700€ por mês perdidos em invisibilidade. Em dois anos, são mais de 65.000€ que deviam ter entrado e não entraram.
Note-se uma coisa: a Sandra e o João têm vidas profissionais completamente diferentes. Uma trabalha em casa à prancheta digital, o outro em obra com chave de fendas. Mas o valor/hora mínimo deles é praticamente o mesmo: à volta dos 50-55€. Isto é o que custa ser trabalhador independente em Portugal com uma vida razoável.
Quando cobrar acima do mínimo
O mínimo é o preço a que o negócio não perde dinheiro. Cobrar exatamente o mínimo não deixa margem de segurança: qualquer mês fraco, qualquer cliente que atrasa pagamento, qualquer ferramenta que parte, e o negócio entra em prejuízo.
Razões para cobrar acima do mínimo:
- Margem de crescimento. Investir no negócio, comprar equipamento melhor, formação, contratar apoio pontual: tudo isto precisa de margem.
- Almofada para meses fracos. Agosto e dezembro são, em muitas atividades, meses parados. Com o mínimo como preço, esses meses são prejuízo certo.
- Reserva para férias verdadeiras. Férias completas, sem o portátil na mala. Três semanas de folga por ano.
- Experiência e diferenciação. Portfólio sólido, clientes satisfeitos e especialização que poucos têm valem dinheiro. Não cobrar por isso é não reconhecer o valor de mercado.
Regra prática: cobrar entre 30% e 50% acima do mínimo durante os primeiros 2-3 anos. Quando o negócio estabiliza, dá para otimizar (subir o preço, reduzir o número de clientes, escolher mais).
Preço por valor ou preço por hora
Tudo isto assume cobrança à hora. Em muitas atividades, faz mais sentido cobrar por projeto, por entregável ou por resultado. Um designer pode cobrar 1.200€ por um redesign de site sem dizer quantas horas vai demorar. Um consultor pode cobrar uma avença mensal de acompanhamento sem contar minutos.
Mesmo nesses modelos, o cálculo de valor/hora continua a ser útil como referência interna. Com um mínimo de 53€ por hora e 20 horas estimadas para um projeto, 600€ é orçamento perdedor e 1.500€ é orçamento saudável. O valor/hora deixa de ser o preço dito ao cliente, mas continua a ser a régua com que se medem propostas.
A pior posição é não saber o valor/hora interno e aceitar projetos a olho. Alguns são lucrativos, outros são prejuízo, e no fim do ano só se vê a média, sem se saber quais deram prejuízo.
O próximo passo
O valor/hora é um cálculo que se refaz a cada 6 meses: os custos mudam, os impostos sobem, e a experiência (idealmente) também sobe.
No Elevate Club, a calculadora de preços faz este cálculo com os custos, as horas faturáveis reais e a margem pretendida, e devolve o mínimo por hora e por serviço.
A diferença entre cobrar 25€ e cobrar 55€ está na decisão tomada antes de abrir a próxima proposta.
Para pôr isto em prática, o plano «O preço certo» tem as aulas e as ferramentas, em dias de até 15 minutos, e acaba com a tabela de preços nova, o aumento calculado com os teus clientes e a mensagem para o anunciar.
O cálculo
O preço-hora mínimo, com os impostos de 2026
Quem trabalha 160 horas costuma faturar 80 a 100.
34€ por hora, no mínimo
Faturam-se 36.458€ por ano. Desses, 10.058€ vão para IRS e Segurança Social (28%) e 2.400€ pagam os custos fixos. Ficam 2.000€ por mês.
Estimativa para trabalho por conta própria no regime simplificado, com a Tabela de IRS de 2026 (Lei n.º 73-A/2025) e a Segurança Social a 21,4% sobre 70% do que se fatura (25,2% em obras e transportes). O IVA fica de fora: até 15 000€ por ano há isenção e, acima disso, cobra-se 23% por cima do preço. Não conta com o IRS Jovem nem com o mínimo de existência, que só baixam o imposto: a reserva peca por excesso.